Textos Livres - Junqueira Ayres
   
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Miniconto

Última cerimônia

Restava a Gonçalves pouco tempo de vida. O médico lhe dera, no máximo, dois meses. A doença, em fase aguda, já corroia as suas entranhas e provocava sintomas que não lhe permitiam quaisquer dúvidas sobre a iminência do desfecho. Porém, Gonçalves cultivava uma enorme curiosidade para saber como seria o seu velório. Quem iria comparecer, quem iria chorar sobre seu caixão, quais seriam os comentários dos presentes sobre a sua pessoa, a sua vida, os seus atos.
Ele era solteiro, mas tinha muitos parentes e uma gama enorme de amigos que fizera ao longo da vida. A sua fama era de ser muito solidário com todos e gostava de freqüentar tantos eventos e cerimônias quantos para eles fosse convidado. Enfim, Gonçalves era uma pessoa muito conhecida. Vaidoso, achava-se conceituado em vários círculos da sociedade.
Preocupado em deixar esta vida sem poder presenciar sua própria despedida e ouvir os aplausos, ele combinou a realização de uma prévia com seu amigo mais chegado, de toda confiança. Este, comovido com o dilema de Gonçalves, acedeu a seu pedido. Providenciou-se a divulgação pela cidade da notícia do pretenso falecimento, e um caixão foi comprado e entregue onde aconteceria o velório, a própria casa do falso defunto.
Já bastante debilitado pela doença e ajudado pelo amigo, Gonçalves vestiu-se a caráter, posicionou-se devidamente no caixão no meio da sala e aguardou os que viriam se despedir.
Apareceu muito pouca gente, uns poucos parentes, outros tantos amigos. Ninguém levou flores nem chorou sobre o caixão. E os comentários que ouviu sobre a sua pessoa não foram muito agradáveis. Gonçalves ficou frustrado, decepcionado, indignado!. Levantou-se do caixão, expulsou todos de casa e tomou uma resolução: quando verdadeiramente morresse ninguém deveria ser comunicado, partiria só. Quando soubessem, já teria ido.


Escrito por Junqueira Ayres às 10h03
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Miniconto

Curiosidade

 

Meu Deus! Quantas vezes eu parei em frente àquela casa e quedei-me a olhá-la. Quantas horas perdi naquela vigília, e a casa sempre fechada. Eu sabia que ali morava alguém, embora não tivesse a menor idéia de quem seria. Esse mistério me atraia tanto que virou idéia fixa. Chegava lá, a qualquer hora do dia e da noite, me plantava encostado no poste do outro lado da rua, olhava e não via ninguém na casa. Nem sequer uma porta ou janela entreaberta, um mero sinal de ocupação que fosse. Uma luz acesa, uma garrafa de leite vazia ou um saco de lixo. Uma mísera correspondência enfiada na caixa. Nada. Mas, no íntimo, eu sabia que ali morava alguém, e algum dia iria descobrir. A curiosidade era muito grande.

Eu dormia, acordava, dormia de novo pensando na casa. Sonhava que alguém abria uma fresta da janela e ficava a me observar do outro lado. E quando eu atravessava a rua e me aproximava, a janela se fechava. Eu acordava de estalo, suando de frustração. Tomava um banho, me vestia e saía para outra sessão de vigília. Cheguei ao ponto de passar mais tempo em frente à casa que dentro da minha própria. As pessoas que por ali transitavam já me conheciam. No início, olhavam-me curiosas. Porém, com o decorrer do tempo, passaram a me tratar como eu fosse uma figura incorporada ao poste. Como se eu fosse o próprio poste, nem me davam atenção.

Certa noite, sonhei ter recebido em casa um bilhete, colocado sob minha porta. Dizia simplesmente: “Curiosidade pode matar!”. Foi a gota d’água. Agora, eu tinha a certeza que procurava. Da mesma maneira que eu observava a casa, alguém de lá me observava também. Mas, por que aquele aviso, que mais parecia uma ameaça? Alguém se sentia incomodado, e só poderia ser o morador daquela casa. Confesso que, pela primeira vez, senti medo daquele meu ato insano. É, insano, sim. Reconheço. Mas, o que poderia fazer? Algo me puxava para a frente daquela casa.

Ao chegar, naquela tarde, e ver a casa demolida, restando pedras sobre pedras, quase enlouqueci. Não existia mais o objeto de minha atração. Indaguei ao responsável pela obra quem havia ali morado. Ninguém morava ali há anos, foi a resposta. Então, virei as costas e fui procurar outra casa que eu pudesse vigiar.



Escrito por Junqueira Ayres às 17h21
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Um belo entardecer



Escrito por Junqueira Ayres às 12h38
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Miniconto

O antepassado

 

O bisavô de Dorothéia ficava sempre naquela parede, junto à porta de entrada. Era um imenso retrato pintado, moldura de madeira trabalhada. Trajava terno escuro, e no meio da gravata escarlate sobressaía um belo brilhante que, se não fosse pintado, valeria uma fortuna. Do bolsinho do colete saía uma corrente dourada que fazia uma curva elegante e se escondia na aba oposta do paletó aberto. Era de um relógio que nunca aparecia. Talvez nunca tivesse existido.

A figura do antepassado da dona da casa era imponente, com aparência de comendador, cabeça erguida, a fisionomia grave. Estaria na casa dos sessenta, os cabelos grisalhos repartidos do lado, e um bigode cinza bem aparado assentava-se sobre os lábios finos. Equilibrado no nariz adunco, um pince-nez de ouro emoldurava os olhos azuis, sempre cravados em quem passasse à sua frente. Enfim, a tela, a moldura e o personagem formavam um conjunto como convinha a um antepassado de uma família tradicional.

Em casa, só quem apreciava aquele quadro eram a própria Dorothéia e os cupins. Estes, por duas ou três vezes, haviam obrigado a família a contratar custosos trabalhos de restauro do enorme trambolho. Trambolho aliás era como Eufrates, marido de Dorothéia, considerava a tela.. Desde o casamento, e lá se iam 30 anos, o tal antepassado passou a morar com eles. Ao longo do tempo, Eufrates, com o apoio dos filhos, havia negociado diplomaticamente junto à mulher a retirada do retrato de casa. Mas ela sempre se mantinha irredutível.

Um dia, o casal recebeu uma proposta irrecusável de famoso antiquário: a tela seria comprada e muito bem paga por um cliente seu que havia ficado rico e necessitava do respaldo de uma ascendência tradicional. Após muito pensar e muito se lamentar, a mulher rendeu-se aos argumentos de Eufrates e dos filhos. Afinal, os valores envolvidos na transação haveriam de curar a sua dor de consciência.

O bisavô de Dorothéia mudou de casa e de nome, e hoje posa de antepassado — com status de comendador — da nova família, o retrato orgulhosamente pendurado em uma outra parede da cidade.



Escrito por Junqueira Ayres às 11h07
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Conto

A festa

 

Ao primo canto do galo, a festa acabou. Como por encanto, a musica cessou, a luz se apagou, as janelas do casarão no fim da rua se fecharam. Ninguém saiu, ninguém entrou. Como sempre.

Os vizinhos já tinham presenciado aquilo algumas vezes, mas nunca se acostumaram. Antes, ainda se aproximavam da casa iluminada, intrigados por não terem visto ninguém chegar nem entrar. Nada se via lá dentro, embora a música tocasse e o vozerio saísse pelas janelas. Estas eram altas, é verdade, mas permitiriam pelo menos divisar cabeças, o que não acontecia. A porta da frente sempre ficava fechada.

O pessoal então voltava no mesmo pé, se benzendo. No início, chegaram até a questionar a senhora que ali morava sobre aquelas manifestações, mas ela respondera secamente:

¾ É um encontro de velhos amigos!

Dona Mercedes morava sozinha e reclusa, desde que ficara viúva há vários anos. Não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, só uma antiga empregada, Otília, que ainda vinha fazer o serviço diário. Ela mesma nunca vira nada de extraordinário por lá, e, um tanto seca, não gostava de conversar sobre os hábitos de sua patroa. Cortava sempre a curiosidade alheia. Toda quinzena ela trazia uma sobrinha para ajudá-la na faxina.

De dia, havia algum movimento lá dentro, principalmente na cozinha e nas dependências de trás. À tardinha, entretanto, a empregada se retirava e o silêncio caía sobre o casarão. Dona Mercedes ficava só, com as suas lembranças.

Quando a solidão apertava, ela resolvia dar uma festa. Para seus convidados.

A casa era toda decorada com móveis e peças antigas e valiosas, resquícios de um passado opulento. Pratarias, faianças, louças e cristais estrangeiros se distribuíam pelos ambientes. Toda semana dona Mercedes, pessoalmente, supervisionava a faxina da casa, principalmente a cuidadosa limpeza de suas antigüidades.

Otília ficava imaginando para quem iria aquilo tudo depois que ela morresse. Que soubesse, de conhecido dona Mercedes só tinha um velho advogado que cuidava de seus interesses e que a visitava duas vezes por ano, para assinatura de papéis.

No grande salão de visitas, havia um quadro que cobria boa parte da parede. Retratava uma festa, gente sentada conversando, outras de pé, pares dançando ao som de uma orquestra de cordas, ao fundo. Todos bonitos, muito bem vestidos, como antigamente. As fisionomias eram familiares à velha senhora.

Alguns anos após perder o marido e sentindo a saudade, a solidão e o peso da idade chegarem, dona Mercedes encomendou a tela a um pintor famoso. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já mortos, todos queridos, com as seguintes recomendações: os retratados deveriam mostrar-se alegres, sorridentes, seus rostos voltados para a frente; os olhos convergindo para um ponto de tal forma que, de qualquer parte da sala onde estivesse o observador, todos estariam olhando para ele.

O salão normalmente ficava fechado e só era aberto para a faxina ou quando dona Mercedes dava seus saraus.

Nessas ocasiões, após a saída da empregada, ela se vestia a caráter, acendia as luzes da casa, abria os janelões e colocava no toca-fitas uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música ao fundo ¾ única concessão moderna que aceitara em sua vida, por conveniência.

Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão, e seu espírito se integrava ao ambiente da tela, conversando e confraternizando-se com os entes queridos.

Um dia, a gravação se calou, as luzes não se apagaram quando o galo cantou. A manhã chegou e as janelas continuaram abertas. Quando Otília a encontrou, a velha senhora estava ainda em sua poltrona. Parecia dormir serenamente, com a taça tombada aos pés e o vinho derramado no tapete.

Na quadro em frente, as figuras agora tinham os rostos sérios, tristes, lágrimas escorridas pelas faces. Os instrumentos pendiam inertes das mãos dos músicos.

Não mais se dançava, não mais se conversava, não mais haveria festas naquela casa.



Escrito por Junqueira Ayres às 10h47
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Conto

O homem de branco

 

Você está sozinho em casa, à noite, sentado na poltrona no meio da sala, lendo um livro. A luz do abajur ao seu lado incide sobre a poltrona. No resto da sala, atrás de você, a luz é difusa, quase penumbra. Tudo é silêncio, a não ser pelo barulho de um ou outro carro que, vez em quando, passa na rua. Na vizinhança, todos já devem ter ido dormir. Não se ouve vozes, nem música de rádio, nem televisão embalando os mais renitentes. As portas e janelas fechadas de sua casa não lhe permitem perceber o vento farfalhando nas folhas das árvores.

Aqui dentro, nada. Só você lendo um livro que lhe prende bastante a atenção.

De repente, uma estranha sensação, um leve arrepio na nuca. Como se um inseto pousasse num fio de cabelo. Você passa a mão na cabeça e continua a ler.

Três ou quatro páginas adiante, outro arrepio. Desta vez, mais forte. Como se alguém lhe tivesse tocado a nuca com a ponta do dedo. O calafrio desce pescoço abaixo, você se vira na poltrona e... não tem ninguém!

Com um risinho idiota nos lábios, você passa a mão pelo encosto para ver se não é nenhuma formiga, ou até uma baratinha que tenha escapado da cozinha. Nada, absolutamente nada, nem ninguém. Para todos os efeitos, você desce um pouco mais na poltrona, escondendo a cabeça no encosto. Ora, esconder de que? Que bobagem! Você sobe de novo, muda a posição das pernas cruzadas e mergulha outra vez no livro, justo onde o autor começa a desenvolver uma linha de raciocínio interessantíssima, que requer toda a atenção. Qualquer pormenor que escape, você perde o fio da meada.

A noite está quieta, agradável. Nem faz calor nem está frio. A temperatura ideal para uma insônia literária. Os carros agora passam com menos freqüência. Os vizinhos estão dormindo e você está sozinho nesta parte do mundo. Você e seu livro, o autor e suas idéias.

Agora o arrepio é forte, envolve a cabeça, eriça seus cabelos, desce pela espinha até o rabo. O livro voa longe, você pula no meio da sala com os olhos arregalados em direção à porta da cozinha, atrás da poltrona. O coração dispara, a respiração pára, os intestinos se retorcem e você dá um pum. Puro nervosismo.

Lá atrás, na penumbra, não há nada, nem sombras. Não existe motivo aparente para que você tenha este tipo de reação.

Ainda de pé, você coça a cabeça, respira fundo, as narinas bem abertas, tentando se acalmar. Você olha mais uma vez ao redor, como a se certificar de que está realmente só. Pega o livro no chão e o põe sobre a poltrona. Pelo sim, pelo não, você atravessa a sala e acende a luz de cima ¾ Deus seja louvado! Abre a porta da cozinha, para inspecionar, o coração aos poucos voltando ao batimento normal.

Após beber um copo d’água, você apaga a luz de cima, volta à poltrona e procura no livro a página que estivera lendo. Apoia a cabeça no encosto e fica pensando sobre o que acontecera. Tenta arranjar uma razão plausível e não encontra. Medo? Solidão? Energia? Algo sobrenatural? Você não consegue chegar a um acordo. Aliás, você sabe que não adianta pensar muito. É melhor não dar importância e voltar à leitura. E é o que você faz.

Nas páginas seguintes você tem que voltar constantemente, pois seu espírito ainda está meio conturbado. Mas, com o tempo, a leitura engrena de novo. As horas passam, nada do sono chegar.

Então você o vê! Como se tivesse sido atingido por um raio, todo o seu corpo enrijesse, seu cabelo fica em pé, você fica paralisado. Pelo canto do olho você o vê, todo de branco, sentado numa cadeira junto à parede, olhando fixamente para você. Seu coração, você não sente mais bater, seus olhos estão vidrados, grudados no livro, mas você não enxerga nada... mas você o vê pelo canto do olho. Ele está lá, sentado, olhando para você. Sem fazer um gesto.

Terror, pavor, tudo isso é pouco para denominar o que você está sentindo. Não se atreve a fazer um mínimo de esforço para virar a cabeça e encarar a figura de frente. Você está totalmente paralisado e tem certeza de que vai morrer. Após alguns minutos de horror mortal, você consegue girar a cabeça em direção ao vulto. Parece que leva um século, mas você olha como se salvando da morte iminente.

Não há ninguém sentado naquela cadeira. Não há ninguém na sala.

Você urra, pula da poltrona, acende a luz de cima.

Suando abundantemente, você se encosta no tampo da mesa para não cair. Seu coração parece que vai arrebentar no peito, o sangue espirrar pelos olhos, nariz, pelos ouvidos. Você pede, pelo amor de Deus!, que alguém ouça o barulho que você está fazendo e venha saber o que está acontecendo.

Você está apavorado. Sabe que viu aquilo pelo canto do olho. Disso tem absoluta certeza. Mas quando olhou, a figura não existia ou tinha desaparecido...

Ainda arrepiado, você abre a porta da rua e sai à procura de alguém para contar a terrível experiência. Não há ninguém lá fora. Está tudo deserto. É claro que você não vai acordar um vizinho para contar uma coisa dessas. “Poderia ter sido um pesadelo, não se preocupe, volte para cama, faça o sinal da cruz, se meta debaixo da coberta e tente dormir de novo. Essas coisas acontecem quando se mora sozinho”, diria o vizinho com im sorriso entre irônico e de compaixão.

Você então resolve entrar, tranca bem a porta, deixa todas as luzes de casa acesas e vai para o seu quarto. Leva o livro, naturalmente.

O ambiente parece pesado, o ar abafado, um cheiro acre de medo. Você se tranca no quarto, põe uma cadeira encostada na porta, prendendo a maçaneta, e deita-se na cama, cobrindo-se com o lençol.

Já mais calmo, retoma a leitura do livro, um olho no texto, o outro na porta, à sua direita.

As páginas vão se sucedendo até que, pelo canto do olho, você revê o homem vestido de branco, sentado na cadeira junto à porta, olhando fixamente para você.

De um lado, não dá para perceber as feições, se jovem, se velho. Você só percebe um vulto humano sentado, de pernas cruzadas, usando ao que parece um terno branco..

Mais uma vez, você está apavorado, paralisado, suando feito uma besta, o coração aos pulos. “Meu Deus, de novo não!”, você grita.

Tudo se passa numa questão de segundos. Você cria coragem, se volta para o estranho, ele não está mais lá. Você salta da cama pelo outro lado, consegue abrir a janela e pula para fora em direção à rua, alucinado de pavor.

Que pena! Justamente na hora em que um carro passa correndo. Não dá nem tempo de frear. Você só se sente jogado para cima, uma dor intensa no corpo, a cabeça estourando para todos os lados.

Mas, antes da escuridão descer, ainda no ar você vê pelo canto do olho que o carro é dirigido por um homem todo de branco, olhando fixamente para você.



Escrito por Junqueira Ayres às 10h41
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Miniconto

Passos na escada

Gabriel havia se mudado recentemente. Para ter mais sossego em seu trabalho de escritor e também por razões econômicas, transferira-se para um bairro mais central, com aluguéis bem baratos, e onde a casas, antigas, eram menores e algumas delas até geminadas. Como a que Gabriel passou a morar. Igual às suas vizinhas, era estreita e tinha dois andares. Na parte de baixo, havia a sala, um banheiro e a cozinha, ligados um corredor lateral estreito. Entre o banheiro e a cozinha ficava a escada de madeira que ligava os dois pavimetos. O andar superior era ocupado pelo quarto de dormir, na frente, outro banheiro, o vão da escada e uma saleta nos fundos, onde Gabriel instalou seu escritório. Ali ele passava a maior parte da noite, quando chegava do trabalho, lendo, escrevendo seus textos, fazendo seus estudos, não raro varando a madrugada. Vez em quando, descia à cozinha para se refrescar do calor com um copo de água gelada.

Certo feita, por volta das nove horas ― ele havia chegado mais cedo em casa ―, Gabriel ouviu passos na escada. Eram lentos, cadenciados, como os de um idoso com problemas de locomoção. Assustado, Gabriel arriou o livro sobre a escrivaninha e dirigiu-se ao corredor, acendendo a luz do patamar para ver quem vinha subindo. Ninguém vinha subindo. Arrepiado, ele ainda desceu um lance para confirmar. A escada estava vazia. Ele voltou para o escritório, certo de que talvez a sua imaginação de escritor estivesse indo longe demais.

 Na noite seguinte, à mesma hora, aconteceu de novo. Os mesmos passos, a mesma cadência, a mesma constatação de que ninguém subia a escada. Mas o medo foi maior. Gabriel ficou assustadíssimo, e passou a noite em claro, fechado em seu quarto, como se uma simples porta trancada tivesse o dom de barrar a visita de uma assombração ou do que aquilo fosse.

Pela manhã, ao sair para o trabalho, arrasado por uma noite insone e sobressaltada, Gabriel encontrou-se com a sua vizinha do lado, uma velha senhora, e contou-lhe o que havia se passado. Ela então lhe disse que, em sua casa, a escada dava para a mesma parede da escada de Gabriel, e que ela costumava se recolher sempre às nove horas. Era o som dos seus passos que, subindo para o seu quarto, reverberava pela parede comum e passava para o outro lado. E a velha senhora ainda lhe fez um pedido:

― O senhor, quando usar a escada no meio da noite, ande sem sapatos. Às vezes eu acordo assustada pensando que é o meu finado marido que vem chegando para me buscar.



Escrito por Junqueira Ayres às 17h32
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Conto

O quintal

 

Creio que todo mundo já teve um quintal em sua vida. Pelo menos aqueles que tiveram a felicidade de passar a infância em uma casa. Mais que um simples espaço, o quintal era um santuário, um refúgio. Um lugar onde se passava a maior parte do dia. Ali a gente se escondia, brincava, e se sentia seguro.

O quintal tinha forma, cheiros peculiares, cores variadas, tinha vida. Era com um mundo à parte do mundo, com suas árvores, seus bichos, sua terra rica em minhocas, caracóis e insetos. Um escola/laboratório onde se aprendia os segredos da natureza.

Cada canto do quintal era especial. Havia o galinheiro com uma palhocinha no meio onde a gente catava os ovos. A horta, encostada ao muro, tinha quatro ou cinco leiras, de onde a cozinheira tirava os temperos e legumes que iam para a panela. A casinha do cachorro, de madeira tosca, ficava encostada à pequena escada que subia para a cozinha. O grande quaradouro de madeira e zinco se espichava ao sol, junto ao tanque de lavar.

O resto do quintal era ocupado pela mangueira, pelo araçazeiro, a jaqueira, a árvore da fruta-pão e o cajueiro, que arriava seus galhos para a gente subir.

O chão era de terra batida, mas havia umas manchas de capim onde viviam os grilos que a gente pegava com caixa de fósforo vazia e os percevejos que a gente botava no bolso das empregadas. Mas havia as lagartixas, os calangos e as formigas, que saíam do chão e subiam em fila pelos troncos das árvores e arbustos.

Lá no alto, nos últimos galhos, os passarinhos faziam os ninhos e acordavam a gente a cada amanhecer, com seus gorjeios harmoniosos. Na mangueira morava um sabiá-coleira, cujo canto até hoje está presente em minha memória, e um casal de bem-te-vi, que se deliciava com as mangas-rosas.

E o sarigüê, que de vez em quando passava em desabalada carreira na beirada do muro, carregando o filhote na bolsa e se esquivando das pedradas? Nunca consegui acertá-los, graças a Deus!

As coloridas borboletas, sazonais, se misturavam com as flores no canteiro que minha mãe cultivava para enfeitar a mesa da sala de visitas. Dividiam o alimento, o néctar das rosas, dos cravos e das margaridas com os beija-flores, que paravam no ar de puro êxtase.

O quintal tinha duas portas, como todo quintal que se preza. A permitida, dando acesso à casa através da cozinha, de onde vinha a conversa da cozinheira com a lavadeira, geralmente falando da vida dos outros. Mas que para a gente eram apenas sons confusos, que se ouvia mas não se prestava atenção. Era também da porta da cozinha que vinha o grito de minha mãe me chamando para almoçar, tomar banho, estudar, cumprimentar as visitas etc. Geralmente, esses chamados eram recebidos com má vontade, sinais de chateação, às vezes gestos raivosos. Quebravam o encanto, tiravam a gente das viagens, das caçadas, das explorações, das pesquisas.

A outra porta, lá no muro do fundo, sempre estava trancada e um cadeado prendia a pesada corrente. Essa era a porta proibida, nunca aberta. Dava para o mistério, para o desconhecido, para o mundo assustador atrás do quintal. Um mundo de mato fechado, habitado por feras, lobisomens e mendigos que roubavam criancinhas para comer. Era onde viviam as cobras que engoliam boi e gostavam de levar menino desobediente.

Mas aquela porta lá no fundo do quintal também escondia um mundo de curiosidades e aventuras. Feita de madeira maciça, virava e mexia ela estava sendo sacudida nos gonzos, testada para ver se abria e deixava espreitar o que havia por detrás. A gente se transformava em Super-Homem, em Capitão Marvel, em Tarzã, mas a porta permanecia firme e não se dobrava à força dos super-heróis. Desafiava o poder dos raios e a vontade dos deuses.

Um dia, aquele santuário foi maculado. De uma hora para outra acabou, perdeu o encanto, o sentido, virou um local assustador onde nunca mais eu quis pisar.

A porta do fundo amanheceu aberta, forçada com pé-de-cabra, e o rapaz que trabalhava em uma casa da vizinhança pendia enforcado na minha mangueira. Quem descobriu fui eu. Quisera não ter sido. A imagem nunca mais me saiu da cabeça.

Os olhos esbugalhados, a língua para fora, a calça cagada e mijada, o pescoço torto pendurado na corda, justo no galho que eu mais gostava. Logo me levaram para dentro de casa, em estado de choque.

Nunca mais voltei ao quintal, que era o meu mundo inocente, de sonhos e felicidade. A partir daí deixei de gostar de quintais. Eles perderam o sentido para mim. O encanto acabou.

Mudei os hábitos, passei a viver no porão. Era onde meu pai guardava seus livros e revistas. Aprendi a ler, e um outro mundo se abriu para mim. O quintal se alargou, ficou sem limites, sem portas fechadas. Hoje, o meu quintal tem muitas portas, que posso abrir a qualquer momento estendendo a mão à estante e pegando um livro.

 



Escrito por Junqueira Ayres às 19h02
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Miniconto

 

O esportista

 

Até há pouco, Antenor era um homem bem disposto. Aposentado, acordava bem cedo, fazia suas caminhadas matinais em marcha forçada pelo bairro. Ia ao banco fazer pagamentos, não entrava na fila de idosos. Pela tarde, visitava o shopping para um papo com os amigos. Ao anoitecer, voltava a pé e passava na padaria para levar pão para casa. Jantava com a mulher, e então os dois sentavam para assistir televisão. Cedo, ele ia dormir, o corpo cansado.

Desde jovem, Antenor foi um esportista. Exímio remador, jogava futebol com os amigos, disputava torneios de basquete, praticava natação em piscina e no mar. Orgulhava-se de se manter sempre jovem e saudável, e gostava de dizer que o segredo de domar a idade estava na cabeça.

Mas, de uns tempos para cá, começou a assumir certas atitudes de velho, para desgosto da mulher. Ficou mole, preguiçoso, não mais saía de casa. Até o pão vinham entregar na porta. Criou barriga, perdeu a vaidade. A mulher o incentivava a desenvolver certas atividades na rua, mas ele se recusava. Os amigos lhe telefonavam, cobravam sua presença nas rodas vespertinas, e ele sempre dava uma desculpa ou outra. Até que pararam de lhe procurar.

A saúde declinou. Bastava o tempo mudar, pegava resfriados, vivia de nariz entupido. Nessas ocasiões, vestia o roupão de banho, enrolava o cachecol no pescoço e assistia televisão com os pés imersos em uma bacia com água quente, saboreando um chá de limão com alho. A mulher via aquilo tudo com tristeza.

― É... meu velho está ficando velho ― dizia-lhe ela, mais como reprimenda.

Um dia ― tem pouco tempo ―, Antenor caiu em si. Achou-se ridículo no papel de ancião. Lembrou-se do seu glorioso passado de esportista, forte e sadio. E bonito. Vaidoso, sempre se achara uma figura de fina estampa. Resolveu mudar, sacudir a inércia. Despiu o roupão, tirou os pés da bacia, fez algumas flexões com os braços e pernas e meteu-se sob uma chuveirada fria.

Pegou uma pneumonia e morreu dois dias depois.

 



Escrito por Junqueira Ayres às 13h15

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Miniconto

A consulta

Na ante-sala da clínica do hospital, Adalberto aguardava a sua filha que havia entrado para realizar um exame especializado. Um pequeno caroço aparecera na mama da moça, e em casa estavam todos preocupados com o que poderia ser aquele corpo estranho. Em vista do estado psicológico da filha, Adalberto resolveu acompanhá-la. E lá estava ele pacientemente sentado na ampla sala, observando o movimento ao redor. De repente, ele ouviu seu nome ser chamado. Assustou-se, estava com o pensamento longe, imaginando como estaria indo o exame da filha. Chamaram-lhe de novo.

Adalberto se dirigiu ao balcão. Provavelmente, sua filha precisava dele lá dentro e havia pedido que o chamassem. Com o coração apertado, identificou-se e então lhe deram uns papéis, onde constavam dados pessoais seus. A moça do balcão disse para ele entrar e se dirigir à sala número sete. Lá, o médico, um senhor de cabelos brancos, o recebeu sorrindo e o mandou sentar na cadeira em frente. Fez-lhe algumas perguntas sobre a sua saúde, tomou sua pressão, auscultou-lhe o peito e as costas, apalpou-lhe cuidadosamente a garganta com os dedos, pediu para que abrisse a boca a fim de observar os interiores. Foi um exame quase completo. O médico perguntou o que queria saber e escreveu na ficha médica o que deveria escrever. Por fim, o encaminhou para um exame de raio-x, no fim do corredor. Depois, mandaram-lhe aguardar o resultado lá fora, na sala de espera.

Durante todo esse tempo, Adalberto fizera tudo o que lhe pediram, porém sem entender o que se passava. Afinal, só fora ali para acompanhar a filha. De novo sentado, ele encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, tentando coordenar os pensamentos. De repente, tocaram-lhe no ombro. Era sua filha, que já havia feito seu exame e o chamava para irem embora. Ele olhou para ela.

― Me aconteceu uma coisa estranhíssima ― e contou à filha o que tinha se passado.

Ela disse que não teria dado tempo para acontecer o que o pai falou. Ele insistiu. Então, se dirigiram ao balcão, e o pai pediu à atendente que confirmasse à filha a sua história. A moça negou, não o havia encaminhado a qualquer médico nem o seu nome constava da relação de pacientes inscritos para exames. Adalberto insistiu, disse até o nome do médico que o atendera na sala sete.

― Não há médico com esse nome, senhor, nem há sala sete aqui.

Então, a filha pegou carinhosamente o pai pelo braço e foram os dois pelo corredor, em direção à saída do hospital.



Escrito por Junqueira Ayres às 11h16
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Minicrônica

Desligão

 

Desliguei a geladeira, desliguei o chuveiro, desliguei o fogão, desatarraxei as lâmpadas ¾ que já eram de 15 velas ¾, só dou descarga no banheiro de dois em dois dias. O telefone, arranquei da tomada e escondi na despensa. Botei o aspirador de pó na garagem e estou jogando a poeira para debaixo do tapete. A roupa eu passo espichando-a sob o colchão e deitando em cima.

Televisão, nem pensar! Pra que notícias? Meu contato com o mundo se resume hoje à janela aberta na sala. Pelo menos, alguma fofoca ou boato pode entrar, trazido pelos ventos. Pra que novelas? Já bastam as brigas dos vizinhos e o namoro tórrido de minha empregada com o guarda noturno, ao pé do muro da frente.

Na verdade, tenho um radinho de pilha “made in China”, que só fala chinês e eu não entendo nada mesmo...

E-mail eu já não recebo há muito tempo. O computador tá em cima do armário e a memória dele já deve estar sofrendo do “mal de Alzheimer”, por falta de uso.

Quem quiser falar comigo tem que ser pelo correio, que eu respondo através da “carta social”, que custa 1 centavo.

Meu carro já não sente o cheiro de gasolina há um tempão. Tá lá parado, com o pneu baixo e a bateria descarregada.

Minha casa tá parecendo um santuário, cheia de velas por cima dos móveis. À medida que vou acendendo uma na frente, vou apagando a de trás.

Minha mulher fez as malas e se picou de casa. Reclama que estou desligado na grana e na cama.

Minha empregada, o guarda-noturno levou embora. Tô comendo sanduiche de pão com banana, que não precisa esquentar. Banana-dog.

Avisei lá no trabalho que estava tirando um mês de licença, pra não ter que sair de casa e gastar a sola do sapato. Responderam que não precisava mais voltar, que já tinha outro cara na minha mesa.

Enfim, tô desligadão!

Eles não querem que a gente economize energia? E então? A gente tem que fazer esses sacrifícios para ajudar o país, ajudar o governo e as classes menos favorecidas lá em Brasília a cuidar dos destinos da nação. Por mim, eles podiam até desligar aquelas duas bacias que uma fica de boca para cima e a outra de boca para baixo, que não faziam falta e a economia ia ser bem maior.

Ou será que estou errado? Cartas para... para onde mesmo? Tá tudo escuro, daqui não dá para ver o nome da rua.

 

Junqueira Ayres



Escrito por Junqueira Ayres às 15h50
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Minicrônica

Remédios

 

Enquanto o Governo briga com os grandes laboratórios sobre a obrigatoriedade dos remédios serem designados por nomes genéricos, em vez de fantasia, os consumidores vão engolindo suas pílulas sem saber muito o que estão tomando. Confiam nos seus médicos, que estudam pra receitar, ou nos balconistas de farmácia, que ganham pra empurrar.

Não se quer aqui entrar no mérito da questão que, como se diz por aí, é briga de branco, e não se deve meter a colher em briga de marido e mulher. Mas que nomes de fantasia de remédios são interessantes, lá isso são. E, se acabarem, vai se perder uma importante fonte para o imaginário popular.

Querem exemplos?

Vamos imaginar o encontro de dois grupos pertencentes a civilizações milenares. O chefe de um deles, Pankreon, se adianta e, com o braço levantado, saúda os visitantes:

¾ Salonpas!

Os visitantes podem ser de um país do sudeste asiático, a Colchicina, ou habitantes da cidade chinesa de Xantinon, pouco importa.

A associação de idéias é fonte de inspiração para os artistas e principalmente escritores, como a falecida poetisa goiana Cora Coramina. Os loucos também estão utilizando a imaginação na arte como meio de cura, em vários Nasalcônios do país.

Os nomes de fantasia dos remédios estão em todo lugar, inclusive na literatura brasileira. Como é o caso do mais famoso livro de Machado de Assis, Dom Casmurro, que trata de problemas de ciúme entre Bentyl e Capitosse.

Mas fantasia mesmo a gente encontra é no Carnabol, aquela confusão, uma Butazona! Por sinal, ano passado, de tanto ver bundas em cima dos trios nos circuitos da cidade, um conhecido meu teve um Espasmoplus e ficou Ciclopégico.

A gente não deve ser Dogmatil, como dizia o filósofo grego Hipoglós. Em todo o caso, um bom exercício de imaginação é ficar olhando o céu à noite e tentando identificar uma estrela-anã, ou Rubranova, na constelação de Omcilon. De astros entendiam muito bem os egípcios, que há milhares de anos já desenhavam mapas do céu, como o que foi encontrado na tumba do faraó Krinohepat.

Por sinal, essa tumba só foi descoberta recentemente pelos arqueólogos, após anos de escavação. É que a área onde se encontra, no Alto Egito, havia sido soterrada por uma devastadora Terramicina. Depois de muita discussão sobre o local das escavações, Furacim, fura não, os egiptólogos chegaram ao ponto certo.

Coincidentemente, um mapa parecido foi encontrado na pirâmide de Trimexazol, no sul do México, junto a um antigo instrumento musical de cordas maia, a Xylocaína.

No mais, quem está certa é minha mulher, a Ismelina, que prefere se recolher ao jardim lá de casa e observar a revoada de Passiflorines, em vez de ficar indo para fila de bancos, como fazem os Estafilóides. Os outros que se Foldan!

 

Junqueira Ayres



Escrito por Junqueira Ayres às 15h47
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Miniconto

O homem e seus livros

 

Ramiro Jatobá vivia sozinho desde que ficara viúvo. Professor aposentado, raramente saía de casa, apenas por necessidade. O mundo lá fora não mais o atraía, achava-o sem graça. Havia passado boa parte de sua existência tentando incutir um pouco de cultura humanística na cabeça dos alunos. Poderia ter tido melhores resultados se as cabeças não fossem tão duras e tão desatenciosas, costumava ele dizer. Lembrava-se de uma máxima de Einstein: “A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original”.

Recolhera-se resignado à vida particular, onde os únicos companheiros eram os livros que se alinhavam nas estantes de sua biblioteca. Amava-os como se fossem filhos, que, aliás, nunca teve. Mais que isso, eles eram seus amigos de todas as horas.

Entretanto, quando se sentia muito só, Jatobá tinha o hábito de conversar com um interlocutor imaginário que, como tal, era paciente e muito bom ouvinte. Julgava-o o melhor discípulo que jamais tivera. Costuma-se dizer que maluco é quem fala sozinho. Nada mais inverossímil! Pessoas muito solitárias costumam encetar longas conversas consigo mesmo, criando um figura ilusória para com ela dialogar e assim melhor expor seus pontos de vista.

Jatobá não era maluco nem excêntrico, era apenas solitário. Não monologava, dialogava. E nessas horas sucedia que o assunto era um só, os livros. Gostava de discorrer sobre um determinado autor, uma obra ou sobre um tema que lhe merecia a atenção. Outras vezes, falava orgulhosamente do seu acervo.

Sentado na poltrona de leitura, onde passava grande parte dos dias e das noites, ele costumava dizer ao seu imaginário amigo, os olhos brilhando:

— Meu caro, o que você vê enfileirados ali nas estantes não é uma aglomeração indistinta, inerte. É um conjunto vivo de personalidades. Cada livro tem a sua individualidade, suas características próprias. Cada um com a sua capacidade de transmitir uma mensagem diferente, à sua maneira.

Quedava-se um instante em silêncio, e depois continuava, apontando:

— Repare nas formas: uns volumes são altos, outros baixos; uns finos, outros alentados. Uns têm cores alegres, outros as têm sóbrias. Mesmo os encadernados, vistos de longe parecem iguais, gêmeos. Mas daqui eu distingo cada um deles. Se você chegar mais perto, verá que seus dorsos duros apresentam palavras dispostas diferentemente, formando os nomes dos autores e os títulos. Todavia, prefiro deixá-los ao natural, como saíram do prelo. Só encaderno os que estão em estado precário.

A essa altura do discurso, Jatobá levantava-se e se aproximava de uma estante. Corria carinhosamente o dedo pelo lombo de um livro como se fosse o rosto de uma mulher.

— Uns têm seus títulos escritos de cima para baixo, outros de baixo para cima. Não importa, basta você inclinar a cabeça para um lado ou para o outro. De qualquer maneira, eles são o que são.

Voltava ao seu lugar na poltrona.

— E a diversidade de cores, meu amigo: veja que elas quase não se repetem. Da maneira que você dispuser os livros, seja por qual ordem for, por autor, por assunto, por origem e idioma, sempre haverá, por exemplo, um dorso branco entre dois encarnados, ou um verde ao lado de um amarelo pálido ou de um marrom. Exemplares de cores iguais juntos são tomos de um mesmo livro, de uma coleção ou de enciclopédia.

Fazia outra pausa e concluía, com os olhos brilhando:

— O mais importante, no entanto, é o conteúdo de cada um deles. Uns ensinam, outros informam, aqueles explicam. Uns divertem, outros têm a capacidade de nos deixar reflexivos, perplexos frente ao conhecimento humano.

Pegava o volume que deixara de lado com a chegada do visitante, arrematando:

— E a sensação de bem-estar que a leitura deles proporciona, meu caro, é indescritível. Indescritível!

Dito isso, Ramiro Jatobá voltava a mergulhar na leitura e o seu interlocutor retirava-se discretamente, como convém a um personagem inexistente.

 

Junqueira Ayres



Escrito por Junqueira Ayres às 08h14
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Minicrônica

Dormir em pé

 

Quando eu era adolescente, sem maiores compromissos com o mundo, costumava dormir doze, quatorze horas por dia. Inconformado, meu pai me acordava e me censurava, sabiamente:

— A vida está passando lá fora e você está perdendo o espetáculo!

Eu abria o olho, dava uma olhada no espetáculo e voltava para o travesseiro.

Naquela época, é bom que se diga, eu praticava esporte nas minhas poucas horas vagas e traçava dois pratos de comida no almoço e no jantar. Não tomava café da manhã porque já levantava ao meio-dia.

Mais tarde, homem feito e com responsabilidades de pai de família, as horas disponíveis para dormir reduziram-se a menos de um quarto das 24 horas do dia.

Quanto mais velho vai ficando, diz a medicina, menos tempo de sono o organismo da gente precisa para se restabelecer. Desconfio que essa redução não é um fenômeno de origem fisiológica, e sim decorrente das preocupações que se vai adquirindo pela vida. Com o trabalho, os filhos, as contas a pagar, os compromissos sociais etcétera, etcétera, etcétera, como dizia o Rei do Sião.

Alguns anos atrás, eu trabalhava fora da cidade uns 30 quilômetros e estava sem carro. Vivia dormindo nos ônibus, na ida e na volta. Minha mulher se indignava.

— Quem dorme em ônibus é pobre, é peão de obra. Que vergonha!

Eu não dava atenção a essas manifestações de quem só andava de carro. Enquanto encontrasse o ombro do vizinho pra encostar a cabeça, eu ia cochilando na viagem. Por sinal, nessas horas é que eu via a solidariedade humana. A gente revezava a cada dez minutos.

Ninguém sabe, só pobre e eu, que era pobre com cara de rico, o que é você se sacolejar todos os dias por uma hora, uma hora e meia, em um ônibus entupido de gente que pára de cem em cem metros para renovar o estoque. E me dava por satisfeito quando encontrava um lugar para sentar. Na maioria das vezes, dormia em pé mesmo, apoiado no companheiro ao lado. Em mulher eu não encostava, poderia parecer sacanagem.

Aliás, venho dormindo em pé muito amiúde nos últimos tempos. Trabalho durante a noite, que nem guarda noturno, vigia de farol, gari, revisor de jornal, por aí. Porém, acordo cedo com a movimentação de minha mulher saindo para o trabalho. Então, passo o dia caindo pelas tabelas.

Quando estou dirigindo eu não durmo. Só duas vezes: uma, quando um poste me acordou, e outra, parado na sinaleira, com os carros buzinando atrás de mim. Em fila de banco eu chego a sonhar. Na empresa, dou cada cochilo elegante em frente ao computador que o pessoal pensa que estou prestando uma atenção enorme ao que está na tela.

Outro dia, fui almoçar em um restaurante a quilo. Uma senhora na minha frente na fila demorou tanto em escolher o que iria se servir que dormi em pé com o prato vazio na mão. Quando acordei, não encontrei mais nada. Tinham passado na minha frente e comido tudo. E ainda me cobraram a solitária azeitona preta que me coube.

Ando muito preocupado com o meu futuro. Quanto mais velho vou ficando mais em pé vou dormindo. Uma madrugada dessas, ao voltar do trabalho, fui acordado por um vizinho quando estava parado frente à porta do apartamento, segurando a chave no buraco da fechadura.

Outro dia assisti a um vídeo na internet onde uma velhinha atravessava na sinaleira e de repente parou no meio da faixa de pedestres pra dormir. Acho que de agora em diante vou ter que sair na rua com uma tabuleta pendurada no pescoço: “Cuidado, sujeito a dormir em qualquer lugar!”.

 

Junqueira Ayres

 



Escrito por Junqueira Ayres às 17h08
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Miniconto

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Sonho

 

O sonho ficou tão comprido, tão esticado, espichou tanto que a sua textura se esgarçou, e então surgiram aqui e ali rasgos de claridade, nesgas de sonoridade, vestígios de materialidade, que ela percebeu que já não mais sonhava. Resolveu acordar. Abriu os olhos de supetão e mergulhou na realidade. E ela a recebeu como se lhe aplicasse uma bofetada.

Atordoada, tentou voltar. Cerrou os olhos, procurou lembrar o que esteve sonhando, as últimas imagens, alguns borrões de fantasia, um fio de ficção que fosse. Inútil. A mente já se fechara às recordações oníricas.

O mundo real a sorveu em seu vórtice, e ela, rodopiando, foi jogada contra a plena consciência do que era a sua vida. Levantou-se da cama, foi ao banheiro. Pelo espelho não gostou do que viu. Desejou enfiar-se no vaso sanitário e puxar a descarga. O modo mais abjeto de sumir.

Deixou-se ficar ali por algum tempo, encarando a si mesmo, um resto de tarde entrando pelo basculante. Então, acendeu as luzes sobre a pia e começou a se maquiar. Tratava a vida como um teatro e aquele era o seu camarim. Talvez a persona a protegesse do que havia lá fora. Ou dentro de si mesma. “Ora, o que importa, é tudo a mesma merda!”

Vestiu-se, pegou a bolsa e saiu de casa, mergulhando na noite. Algum cliente a esperava em alguma esquina da cidade.

 

Junqueira Ayres

 



Escrito por Junqueira Ayres às 17h08
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