Textos Livres - Junqueira Ayres
   
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Conto

 

A Festa

Ao primo canto do galo, a festa acabou. Como por encanto, a música cessou, a luz se apagou, as janelas do casarão no fim da rua se fecharam. Ninguém saiu, ninguém entrou. Como sempre.

Os vizinhos já tinham presenciado aquilo algumas vezes, mas nunca se acostumaram. Antes, ainda se aproximavam da casa iluminada, intrigados por não terem visto ninguém chegar nem entrar. Nada se via lá dentro, embora a música tocasse e o vozerio saísse pelas janelas. Estas eram altas, é verdade, mas permitiriam pelo menos divisar cabeças, o que não acontecia. A porta da frente sempre ficava fechada.

O pessoal então voltava no mesmo pé, se benzendo. No início, chegaram até a questionar a senhora que ali morava sobre aquelas manifestações, mas ela respondera secamente:

¾ É um encontro de velhos amigos.

Dona Mercedes morava sozinha e reclusa, desde que ficara viúva há vários anos. Não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, só uma antiga empregada, Otília, que ainda vinha fazer o serviço diário. Ela mesma nunca vira nada de extraordinário por lá, e, um tanto seca, não gostava de conversar sobre os hábitos de sua patroa. Cortava sempre a curiosidade alheia. Toda quinzena ela trazia uma sobrinha para ajudá-la na faxina.

De dia, havia algum movimento lá dentro, principalmente na cozinha e nas dependências de trás. À tardinha, entretanto, a empregada se retirava e o silêncio caía sobre o casarão. Dona Mercedes ficava só, com as suas lembranças.

Quando a solidão apertava, ela resolvia dar uma festa. Para seus convidados.

A casa era toda decorada com móveis e peças antigas e valiosas, resquícios de um passado opulento. Pratarias, faianças, louças e cristais estrangeiros se distribuíam pelos ambientes. Toda semana dona Mercedes, pessoalmente, supervisionava a faxina da casa, principalmente a cuidadosa limpeza de suas antiguidades.

Otília ficava imaginando para quem iria aquilo tudo depois que ela morresse. Que soubesse, de conhecido dona Mercedes só tinha um velho advogado que cuidava de seus interesses e que a visitava duas vezes por ano, para assinatura de papéis.

No grande salão de visitas, havia um quadro que cobria boa parte da parede. Retratava uma festa, gente sentada conversando, outras de pé, pares dançando ao som de uma orquestra de cordas, ao fundo. Todos bonitos, muito bem vestidos, como antigamente. Mas as fisionomias eram familiares à velha senhora.

Alguns anos após perder o marido e sentindo a saudade, a solidão e o peso da idade chegarem, dona Mercedes encomendou a tela a um pintor famoso. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já mortos, todos queridos, com as seguintes recomendações: os retratados deveriam mostrar-se alegres, sorridentes, seus rostos voltados para a frente; os olhos convergindo para um ponto de tal forma que, de qualquer parte da sala onde estivesse o observador, todos estariam olhando para ele.

O salão normalmente ficava fechado e só era aberto para a faxina ou quando dona Mercedes dava seus saraus.

Nessas ocasiões, após a saída da empregada, ela se vestia a caráter, acendia as luzes da casa, abria os janelões e colocava no toca-fitas uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música ao fundo ¾ única concessão moderna que aceitara em sua vida, por conveniência.

Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão, e seu espírito se integrava ao ambiente da tela, conversando e confraternizando-se com os entes queridos.

Um dia, a gravação se calou, as luzes não se apagaram quando o galo cantou. A manhã chegou e as janelas continuaram abertas. Quando Otília a encontrou, a velha senhora estava ainda em sua poltrona. Parecia dormir serenamente, com a taça tombada aos pés e o vinho derramado no tapete.

Na quadro em frente, as figuras agora tinham os rostos sérios, tristes, lágrimas escorridas pelas faces. Os instrumentos pendiam inertes nas mãos dos músicos.

Não mais se dançava, não mais se conversava. Não mais haveria festa naquela casa.



Escrito por Junqueira Ayres às 11h30
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Noite de autógrafos

Estarei promovendo uma segunda noite de autógrafos de meu novo livro, "O galo Bin Laden e outras crônicas bem-humoradas", na Bienal do Livro, Centro de Convenções, estande da Empresa Gráfica da Bahia (Egba), no dia 25 de abril, sábado, às 19hs. O exemplar está sendo vendido a R$30,00.



Escrito por Junqueira Ayres às 10h24
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Orelha do livro "O galo Bin Laden"

"A vida é tão séria, tão complicada, que às vezes dá vontade de tratá-la com bastante humor. É isso que Junqueira Ayres faz em suas crônicas: descreve o cotidiano das pessoas de uma maneira tão bem-humorada que a leitura se torna muito agradável. O autor combina ficção e ralidade e os temas de seus textos são tão corriqueiros e simples que os leitores às vezes questionam como se pode fazer graça com coisas tão banais.

Uma faxineira que tem um dom especial em seu trabalho; um dia da semana que começa errado... e termina errado; um presidente que conclama o país a se vestir de verde-amarelo; um mecânico de carro que diagnostica por ouvido; um galo velho que promove um escarcéu em casa; santos desconhecidos que fazem milagres; remédios cujos nomes servem de inspiração; aposentados que inventam coisas para passar o tempo; pessoas que vivem se esquecendo das coisas, outras que se envolvem em folias carnavalescas.

Enfim, os assuntos são os mais divertidos e inusitados, como também os seus personagens, entre os quais o autor não se acanha em se incluir, e não há como o leitor passear pelas crônicas sem pelo menos um sorriso nos lábios."



Escrito por Junqueira Ayres às 10h16
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Novo livro

Olhaí, gente. Um novo livro meu na praça: "O galo Bin Laden e outras crônicas bem-humoradas". Coletânea de 42 duas crônicas divertidas, publicadas em vários jornais baianos ao longo de 20 anos. Vendas diretas via depósito bancário e envio do exemplar pelos correios. Pedidos para o e-mail junqueira.ayres@yahoo.com.br

Junqueira Ayres



Escrito por Junqueira Ayres às 13h01
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Miniconto

Reclusão

A chave virou na fechadura com o clique característico. Outra volta, outro clique. Félix girou a maçaneta, abriu a porta e mergulhou na penumbra do pequeno apartamento. Nunca deixava a luz acesa. Saía de manhã para trabalhar e não havia razão para gastar energia o dia inteiro.

Acostumara-se àquela recepção diária. Tudo escuro e silencioso em seu refúgio. Era a hora mais ansiada. Mas, bem que às vezes gostaria de encontrar a casa iluminada, alguém o esperando. Às vezes, bem dito, porque não era todo dia que Félix tinha paciência para conviver na rua, quanto mais dividir sua vida particular com outra pessoa. Já bastava o roça-roça, o esfrega-esfrega social a que era diariamente submetido nas obrigações profissionais. Quando punha o pé fora de casa, Félix se eriçava e se revestia de uma armadura para evitar o atrito.

Sua vida era bem rotineira, e ele fazia questão que assim fosse. Não tinha o menor interesse em mudar as coisas. Para ele, sair de casa era por obrigação de sobrevivência. Trabalho, compras, bancos. E o pior, gente!

Lá fora nada lhe interessava. Já a sua casa era o seu verdadeiro mundo. Um casulo que o resguardava de tudo e de todos, o útero materno de onde nunca deveria ter saído. De quando em vez, esse pensamento lhe passava à mente, e então um velho ressentimento contra a mãe aflorava: “Ela nunca deveria me ter parido. Foi sacanagem! Não me perguntou se eu queria sair de lá. Simplesmente, ela me expulsou de casa!”

Tal sentimento, que foi aumentando à medida em que os anos passavam, mesmo vivendo juntos, piorou quando a mãe lhe fez a segunda desfeita: morreu, deixando-o sozinho no mundo. Como vingança, não foi ao enterro. Ignorou os insistentes recados do pessoal do hospital para que tomasse as providências necessárias. “Ela que vá como indigente!”

Pegou todas as coisas da mãe, roupas, sapatos, objetos pessoais, jogou tudo pela janela do apartamento. Não se preocupou com as reclamações dos vizinhos contra aquela chuva de coisas velhas sobre área externa do prédio. Que se dessem por satisfeitos porque, se ele tivesse sabido antes que a mãe iria lhe fazer essa outra desfeita, ela teria ido junto.

A notícia do problema da mãe o pegara de surpresa no trabalho. Tinha sido tudo muito rápido. Alguém do hospital ligou dizendo que ela dera entrada em estado grave. Vizinhos a encontraram caída no corredor do edifício. Pela manhã ela estava bem, não havia se queixado de nada. E agora, aquilo!

Apavorado, Félix correu para o hospital, mas não pôde ver a mãe, internada em coma na UTI. Derrame violento. Se não morresse, disseram os médicos, poderia ficar em cima da cama pelo resto da vida. Félix voltou para casa, desesperado. De madrugada, a mãe morreu. Félix atendeu o telefone, mas não saiu de casa. Enterraram o corpo pela tarde.

Ele chorou até de madrugada, um pouco de saudade, outro tanto de mágoa, e mais outra parte de raiva. A certa altura, não sabia distinguir um sentimento dos outros. Nunca mais teria a mãe o esperando em casa, com a luz acesa. Nunca mais teria a sua companhia. O cordão umbilical fora cortado para sempre. Agora, era ele e o mundo, que detestava. No dia seguinte, ele deu uma faxina geral no apartamento. À noite, não havia um só resquício dela. Pairava apenas no ar um ressentimento redobrado.

Alguns anos depois, Félix não botou mais a cabeça fora de casa. Virou ermitão. Comunicou à repartição que não iria mais trabalhar e não deu justificativas. Achava que não tinha que fazê-lo. Detestava dar satisfação a quem quer que fosse. Odiava partilhar os seus problemas pessoais. Execrava que os outros se intrometessem em sua vida. Quando alguns colegas de trabalho vieram lhe visitar, saber o motivo da demissão e do desaparecimento, não os recebeu. Aliás, sequer abriu a porta, fingiu que não estava em casa. Isso havia acontecido também quando alguns vizinhos quiseram lhe prestar solidariedade pela morte da mãe.

A única pessoa que tinha acesso a ele era o zelador do prédio, que vinha pegar o lixo e a quem Félix incumbia, de vez em quando, de comprar alguns mantimentos e pagar as contas do condomínio, do gás e da luz, que era o mínimo. Assim mesmo, a comunicação se dava por uma fresta da porta, que nunca era aberta totalmente.

O tempo foi passando, Félix vivendo enclausurado, na penumbra. Nem sequer chegava à janela, sempre fechada. Um dia, ele não abriu a porta. O zelador, achando que aquele cara esquisitão finalmente resolvera sair à rua, acabando com a reclusão, se despreocupou e não insistiu. Foi pegar o lixo dos outros apartamentos.

No dia seguinte, Félix também não apareceu. No terceiro dia, um cheiro de coisa podre começou a exalar por baixo da porta. O zelador chamou o síndico e, com a ajuda de um vizinho, arrombaram o apartamento.

Encontraram Félix morto, deitado no sofá da sala, completamente nu e todo encolhido no escuro como um feto no útero da mãe. Na pia da cozinha, havia resquícios de papéis queimados. Eram os seus documentos e tudo o que o pudesse identificar.

A polícia levou o corpo para o necrotério. Dois dias depois, foi enterrado como indigente. Ninguém aparecera para reclamar o corpo. Após os coveiros jogaram a última pá de terra sobre o caixão barato, um cão vadio que por ali passava levantou a perna e mijou na tosca cruz de madeira onde estava inscrito um número qualquer, que não lhe dizia absolutamente nada.

Depois, continuou indiferente o seu caminho.



Escrito por Junqueira Ayres às 16h49
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Miniconto

Última cerimônia

Restava a Gonçalves pouco tempo de vida. O médico lhe dera, no máximo, dois meses. A doença, em fase aguda, já corroia as suas entranhas e provocava sintomas que não lhe permitiam quaisquer dúvidas sobre a iminência do desfecho. Porém, Gonçalves cultivava uma enorme curiosidade para saber como seria o seu velório. Quem iria comparecer, quem iria chorar sobre seu caixão, quais seriam os comentários dos presentes sobre a sua pessoa, a sua vida, os seus atos.
Ele era solteiro, mas tinha muitos parentes e uma gama enorme de amigos que fizera ao longo da vida. A sua fama era de ser muito solidário com todos e gostava de freqüentar tantos eventos e cerimônias quantos para eles fosse convidado. Enfim, Gonçalves era uma pessoa muito conhecida. Vaidoso, achava-se conceituado em vários círculos da sociedade.
Preocupado em deixar esta vida sem poder presenciar sua própria despedida e ouvir os aplausos, ele combinou a realização de uma prévia com seu amigo mais chegado, de toda confiança. Este, comovido com o dilema de Gonçalves, acedeu a seu pedido. Providenciou-se a divulgação pela cidade da notícia do pretenso falecimento, e um caixão foi comprado e entregue onde aconteceria o velório, a própria casa do falso defunto.
Já bastante debilitado pela doença e ajudado pelo amigo, Gonçalves vestiu-se a caráter, posicionou-se devidamente no caixão no meio da sala e aguardou os que viriam se despedir.
Apareceu muito pouca gente, uns poucos parentes, outros tantos amigos. Ninguém levou flores nem chorou sobre o caixão. E os comentários que ouviu sobre a sua pessoa não foram muito agradáveis. Gonçalves ficou frustrado, decepcionado, indignado!. Levantou-se do caixão, expulsou todos de casa e tomou uma resolução: quando verdadeiramente morresse ninguém deveria ser comunicado, partiria só. Quando soubessem, já teria ido.


Escrito por Junqueira Ayres às 10h03
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Miniconto

Curiosidade

 

Meu Deus! Quantas vezes eu parei em frente àquela casa e quedei-me a olhá-la. Quantas horas perdi naquela vigília, e a casa sempre fechada. Eu sabia que ali morava alguém, embora não tivesse a menor idéia de quem seria. Esse mistério me atraia tanto que virou idéia fixa. Chegava lá, a qualquer hora do dia e da noite, me plantava encostado no poste do outro lado da rua, olhava e não via ninguém na casa. Nem sequer uma porta ou janela entreaberta, um mero sinal de ocupação que fosse. Uma luz acesa, uma garrafa de leite vazia ou um saco de lixo. Uma mísera correspondência enfiada na caixa. Nada. Mas, no íntimo, eu sabia que ali morava alguém, e algum dia iria descobrir. A curiosidade era muito grande.

Eu dormia, acordava, dormia de novo pensando na casa. Sonhava que alguém abria uma fresta da janela e ficava a me observar do outro lado. E quando eu atravessava a rua e me aproximava, a janela se fechava. Eu acordava de estalo, suando de frustração. Tomava um banho, me vestia e saía para outra sessão de vigília. Cheguei ao ponto de passar mais tempo em frente à casa que dentro da minha própria. As pessoas que por ali transitavam já me conheciam. No início, olhavam-me curiosas. Porém, com o decorrer do tempo, passaram a me tratar como eu fosse uma figura incorporada ao poste. Como se eu fosse o próprio poste, nem me davam atenção.

Certa noite, sonhei ter recebido em casa um bilhete, colocado sob minha porta. Dizia simplesmente: “Curiosidade pode matar!”. Foi a gota d’água. Agora, eu tinha a certeza que procurava. Da mesma maneira que eu observava a casa, alguém de lá me observava também. Mas, por que aquele aviso, que mais parecia uma ameaça? Alguém se sentia incomodado, e só poderia ser o morador daquela casa. Confesso que, pela primeira vez, senti medo daquele meu ato insano. É, insano, sim. Reconheço. Mas, o que poderia fazer? Algo me puxava para a frente daquela casa.

Ao chegar, naquela tarde, e ver a casa demolida, restando pedras sobre pedras, quase enlouqueci. Não existia mais o objeto de minha atração. Indaguei ao responsável pela obra quem havia ali morado. Ninguém morava ali há anos, foi a resposta. Então, virei as costas e fui procurar outra casa que eu pudesse vigiar.



Escrito por Junqueira Ayres às 17h21
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Um belo entardecer



Escrito por Junqueira Ayres às 12h38
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Miniconto

O antepassado

 

O bisavô de Dorothéia ficava sempre naquela parede, junto à porta de entrada. Era um imenso retrato pintado, moldura de madeira trabalhada. Trajava terno escuro, e no meio da gravata escarlate sobressaía um belo brilhante que, se não fosse pintado, valeria uma fortuna. Do bolsinho do colete saía uma corrente dourada que fazia uma curva elegante e se escondia na aba oposta do paletó aberto. Era de um relógio que nunca aparecia. Talvez nunca tivesse existido.

A figura do antepassado da dona da casa era imponente, com aparência de comendador, cabeça erguida, a fisionomia grave. Estaria na casa dos sessenta, os cabelos grisalhos repartidos do lado, e um bigode cinza bem aparado assentava-se sobre os lábios finos. Equilibrado no nariz adunco, um pince-nez de ouro emoldurava os olhos azuis, sempre cravados em quem passasse à sua frente. Enfim, a tela, a moldura e o personagem formavam um conjunto como convinha a um antepassado de uma família tradicional.

Em casa, só quem apreciava aquele quadro eram a própria Dorothéia e os cupins. Estes, por duas ou três vezes, haviam obrigado a família a contratar custosos trabalhos de restauro do enorme trambolho. Trambolho aliás era como Eufrates, marido de Dorothéia, considerava a tela.. Desde o casamento, e lá se iam 30 anos, o tal antepassado passou a morar com eles. Ao longo do tempo, Eufrates, com o apoio dos filhos, havia negociado diplomaticamente junto à mulher a retirada do retrato de casa. Mas ela sempre se mantinha irredutível.

Um dia, o casal recebeu uma proposta irrecusável de famoso antiquário: a tela seria comprada e muito bem paga por um cliente seu que havia ficado rico e necessitava do respaldo de uma ascendência tradicional. Após muito pensar e muito se lamentar, a mulher rendeu-se aos argumentos de Eufrates e dos filhos. Afinal, os valores envolvidos na transação haveriam de curar a sua dor de consciência.

O bisavô de Dorothéia mudou de casa e de nome, e hoje posa de antepassado — com status de comendador — da nova família, o retrato orgulhosamente pendurado em uma outra parede da cidade.



Escrito por Junqueira Ayres às 11h07
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Conto

A festa

 

Ao primo canto do galo, a festa acabou. Como por encanto, a musica cessou, a luz se apagou, as janelas do casarão no fim da rua se fecharam. Ninguém saiu, ninguém entrou. Como sempre.

Os vizinhos já tinham presenciado aquilo algumas vezes, mas nunca se acostumaram. Antes, ainda se aproximavam da casa iluminada, intrigados por não terem visto ninguém chegar nem entrar. Nada se via lá dentro, embora a música tocasse e o vozerio saísse pelas janelas. Estas eram altas, é verdade, mas permitiriam pelo menos divisar cabeças, o que não acontecia. A porta da frente sempre ficava fechada.

O pessoal então voltava no mesmo pé, se benzendo. No início, chegaram até a questionar a senhora que ali morava sobre aquelas manifestações, mas ela respondera secamente:

¾ É um encontro de velhos amigos!

Dona Mercedes morava sozinha e reclusa, desde que ficara viúva há vários anos. Não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, só uma antiga empregada, Otília, que ainda vinha fazer o serviço diário. Ela mesma nunca vira nada de extraordinário por lá, e, um tanto seca, não gostava de conversar sobre os hábitos de sua patroa. Cortava sempre a curiosidade alheia. Toda quinzena ela trazia uma sobrinha para ajudá-la na faxina.

De dia, havia algum movimento lá dentro, principalmente na cozinha e nas dependências de trás. À tardinha, entretanto, a empregada se retirava e o silêncio caía sobre o casarão. Dona Mercedes ficava só, com as suas lembranças.

Quando a solidão apertava, ela resolvia dar uma festa. Para seus convidados.

A casa era toda decorada com móveis e peças antigas e valiosas, resquícios de um passado opulento. Pratarias, faianças, louças e cristais estrangeiros se distribuíam pelos ambientes. Toda semana dona Mercedes, pessoalmente, supervisionava a faxina da casa, principalmente a cuidadosa limpeza de suas antigüidades.

Otília ficava imaginando para quem iria aquilo tudo depois que ela morresse. Que soubesse, de conhecido dona Mercedes só tinha um velho advogado que cuidava de seus interesses e que a visitava duas vezes por ano, para assinatura de papéis.

No grande salão de visitas, havia um quadro que cobria boa parte da parede. Retratava uma festa, gente sentada conversando, outras de pé, pares dançando ao som de uma orquestra de cordas, ao fundo. Todos bonitos, muito bem vestidos, como antigamente. As fisionomias eram familiares à velha senhora.

Alguns anos após perder o marido e sentindo a saudade, a solidão e o peso da idade chegarem, dona Mercedes encomendou a tela a um pintor famoso. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já mortos, todos queridos, com as seguintes recomendações: os retratados deveriam mostrar-se alegres, sorridentes, seus rostos voltados para a frente; os olhos convergindo para um ponto de tal forma que, de qualquer parte da sala onde estivesse o observador, todos estariam olhando para ele.

O salão normalmente ficava fechado e só era aberto para a faxina ou quando dona Mercedes dava seus saraus.

Nessas ocasiões, após a saída da empregada, ela se vestia a caráter, acendia as luzes da casa, abria os janelões e colocava no toca-fitas uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música ao fundo ¾ única concessão moderna que aceitara em sua vida, por conveniência.

Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão, e seu espírito se integrava ao ambiente da tela, conversando e confraternizando-se com os entes queridos.

Um dia, a gravação se calou, as luzes não se apagaram quando o galo cantou. A manhã chegou e as janelas continuaram abertas. Quando Otília a encontrou, a velha senhora estava ainda em sua poltrona. Parecia dormir serenamente, com a taça tombada aos pés e o vinho derramado no tapete.

Na quadro em frente, as figuras agora tinham os rostos sérios, tristes, lágrimas escorridas pelas faces. Os instrumentos pendiam inertes das mãos dos músicos.

Não mais se dançava, não mais se conversava, não mais haveria festas naquela casa.



Escrito por Junqueira Ayres às 10h47
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Conto

O homem de branco

 

Você está sozinho em casa, à noite, sentado na poltrona no meio da sala, lendo um livro. A luz do abajur ao seu lado incide sobre a poltrona. No resto da sala, atrás de você, a luz é difusa, quase penumbra. Tudo é silêncio, a não ser pelo barulho de um ou outro carro que, vez em quando, passa na rua. Na vizinhança, todos já devem ter ido dormir. Não se ouve vozes, nem música de rádio, nem televisão embalando os mais renitentes. As portas e janelas fechadas de sua casa não lhe permitem perceber o vento farfalhando nas folhas das árvores.

Aqui dentro, nada. Só você lendo um livro que lhe prende bastante a atenção.

De repente, uma estranha sensação, um leve arrepio na nuca. Como se um inseto pousasse num fio de cabelo. Você passa a mão na cabeça e continua a ler.

Três ou quatro páginas adiante, outro arrepio. Desta vez, mais forte. Como se alguém lhe tivesse tocado a nuca com a ponta do dedo. O calafrio desce pescoço abaixo, você se vira na poltrona e... não tem ninguém!

Com um risinho idiota nos lábios, você passa a mão pelo encosto para ver se não é nenhuma formiga, ou até uma baratinha que tenha escapado da cozinha. Nada, absolutamente nada, nem ninguém. Para todos os efeitos, você desce um pouco mais na poltrona, escondendo a cabeça no encosto. Ora, esconder de que? Que bobagem! Você sobe de novo, muda a posição das pernas cruzadas e mergulha outra vez no livro, justo onde o autor começa a desenvolver uma linha de raciocínio interessantíssima, que requer toda a atenção. Qualquer pormenor que escape, você perde o fio da meada.

A noite está quieta, agradável. Nem faz calor nem está frio. A temperatura ideal para uma insônia literária. Os carros agora passam com menos freqüência. Os vizinhos estão dormindo e você está sozinho nesta parte do mundo. Você e seu livro, o autor e suas idéias.

Agora o arrepio é forte, envolve a cabeça, eriça seus cabelos, desce pela espinha até o rabo. O livro voa longe, você pula no meio da sala com os olhos arregalados em direção à porta da cozinha, atrás da poltrona. O coração dispara, a respiração pára, os intestinos se retorcem e você dá um pum. Puro nervosismo.

Lá atrás, na penumbra, não há nada, nem sombras. Não existe motivo aparente para que você tenha este tipo de reação.

Ainda de pé, você coça a cabeça, respira fundo, as narinas bem abertas, tentando se acalmar. Você olha mais uma vez ao redor, como a se certificar de que está realmente só. Pega o livro no chão e o põe sobre a poltrona. Pelo sim, pelo não, você atravessa a sala e acende a luz de cima ¾ Deus seja louvado! Abre a porta da cozinha, para inspecionar, o coração aos poucos voltando ao batimento normal.

Após beber um copo d’água, você apaga a luz de cima, volta à poltrona e procura no livro a página que estivera lendo. Apoia a cabeça no encosto e fica pensando sobre o que acontecera. Tenta arranjar uma razão plausível e não encontra. Medo? Solidão? Energia? Algo sobrenatural? Você não consegue chegar a um acordo. Aliás, você sabe que não adianta pensar muito. É melhor não dar importância e voltar à leitura. E é o que você faz.

Nas páginas seguintes você tem que voltar constantemente, pois seu espírito ainda está meio conturbado. Mas, com o tempo, a leitura engrena de novo. As horas passam, nada do sono chegar.

Então você o vê! Como se tivesse sido atingido por um raio, todo o seu corpo enrijesse, seu cabelo fica em pé, você fica paralisado. Pelo canto do olho você o vê, todo de branco, sentado numa cadeira junto à parede, olhando fixamente para você. Seu coração, você não sente mais bater, seus olhos estão vidrados, grudados no livro, mas você não enxerga nada... mas você o vê pelo canto do olho. Ele está lá, sentado, olhando para você. Sem fazer um gesto.

Terror, pavor, tudo isso é pouco para denominar o que você está sentindo. Não se atreve a fazer um mínimo de esforço para virar a cabeça e encarar a figura de frente. Você está totalmente paralisado e tem certeza de que vai morrer. Após alguns minutos de horror mortal, você consegue girar a cabeça em direção ao vulto. Parece que leva um século, mas você olha como se salvando da morte iminente.

Não há ninguém sentado naquela cadeira. Não há ninguém na sala.

Você urra, pula da poltrona, acende a luz de cima.

Suando abundantemente, você se encosta no tampo da mesa para não cair. Seu coração parece que vai arrebentar no peito, o sangue espirrar pelos olhos, nariz, pelos ouvidos. Você pede, pelo amor de Deus!, que alguém ouça o barulho que você está fazendo e venha saber o que está acontecendo.

Você está apavorado. Sabe que viu aquilo pelo canto do olho. Disso tem absoluta certeza. Mas quando olhou, a figura não existia ou tinha desaparecido...

Ainda arrepiado, você abre a porta da rua e sai à procura de alguém para contar a terrível experiência. Não há ninguém lá fora. Está tudo deserto. É claro que você não vai acordar um vizinho para contar uma coisa dessas. “Poderia ter sido um pesadelo, não se preocupe, volte para cama, faça o sinal da cruz, se meta debaixo da coberta e tente dormir de novo. Essas coisas acontecem quando se mora sozinho”, diria o vizinho com im sorriso entre irônico e de compaixão.

Você então resolve entrar, tranca bem a porta, deixa todas as luzes de casa acesas e vai para o seu quarto. Leva o livro, naturalmente.

O ambiente parece pesado, o ar abafado, um cheiro acre de medo. Você se tranca no quarto, põe uma cadeira encostada na porta, prendendo a maçaneta, e deita-se na cama, cobrindo-se com o lençol.

Já mais calmo, retoma a leitura do livro, um olho no texto, o outro na porta, à sua direita.

As páginas vão se sucedendo até que, pelo canto do olho, você revê o homem vestido de branco, sentado na cadeira junto à porta, olhando fixamente para você.

De um lado, não dá para perceber as feições, se jovem, se velho. Você só percebe um vulto humano sentado, de pernas cruzadas, usando ao que parece um terno branco..

Mais uma vez, você está apavorado, paralisado, suando feito uma besta, o coração aos pulos. “Meu Deus, de novo não!”, você grita.

Tudo se passa numa questão de segundos. Você cria coragem, se volta para o estranho, ele não está mais lá. Você salta da cama pelo outro lado, consegue abrir a janela e pula para fora em direção à rua, alucinado de pavor.

Que pena! Justamente na hora em que um carro passa correndo. Não dá nem tempo de frear. Você só se sente jogado para cima, uma dor intensa no corpo, a cabeça estourando para todos os lados.

Mas, antes da escuridão descer, ainda no ar você vê pelo canto do olho que o carro é dirigido por um homem todo de branco, olhando fixamente para você.



Escrito por Junqueira Ayres às 10h41
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Miniconto

Passos na escada

Gabriel havia se mudado recentemente. Para ter mais sossego em seu trabalho de escritor e também por razões econômicas, transferira-se para um bairro mais central, com aluguéis bem baratos, e onde a casas, antigas, eram menores e algumas delas até geminadas. Como a que Gabriel passou a morar. Igual às suas vizinhas, era estreita e tinha dois andares. Na parte de baixo, havia a sala, um banheiro e a cozinha, ligados um corredor lateral estreito. Entre o banheiro e a cozinha ficava a escada de madeira que ligava os dois pavimetos. O andar superior era ocupado pelo quarto de dormir, na frente, outro banheiro, o vão da escada e uma saleta nos fundos, onde Gabriel instalou seu escritório. Ali ele passava a maior parte da noite, quando chegava do trabalho, lendo, escrevendo seus textos, fazendo seus estudos, não raro varando a madrugada. Vez em quando, descia à cozinha para se refrescar do calor com um copo de água gelada.

Certo feita, por volta das nove horas ― ele havia chegado mais cedo em casa ―, Gabriel ouviu passos na escada. Eram lentos, cadenciados, como os de um idoso com problemas de locomoção. Assustado, Gabriel arriou o livro sobre a escrivaninha e dirigiu-se ao corredor, acendendo a luz do patamar para ver quem vinha subindo. Ninguém vinha subindo. Arrepiado, ele ainda desceu um lance para confirmar. A escada estava vazia. Ele voltou para o escritório, certo de que talvez a sua imaginação de escritor estivesse indo longe demais.

 Na noite seguinte, à mesma hora, aconteceu de novo. Os mesmos passos, a mesma cadência, a mesma constatação de que ninguém subia a escada. Mas o medo foi maior. Gabriel ficou assustadíssimo, e passou a noite em claro, fechado em seu quarto, como se uma simples porta trancada tivesse o dom de barrar a visita de uma assombração ou do que aquilo fosse.

Pela manhã, ao sair para o trabalho, arrasado por uma noite insone e sobressaltada, Gabriel encontrou-se com a sua vizinha do lado, uma velha senhora, e contou-lhe o que havia se passado. Ela então lhe disse que, em sua casa, a escada dava para a mesma parede da escada de Gabriel, e que ela costumava se recolher sempre às nove horas. Era o som dos seus passos que, subindo para o seu quarto, reverberava pela parede comum e passava para o outro lado. E a velha senhora ainda lhe fez um pedido:

― O senhor, quando usar a escada no meio da noite, ande sem sapatos. Às vezes eu acordo assustada pensando que é o meu finado marido que vem chegando para me buscar.



Escrito por Junqueira Ayres às 17h32
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Conto

O quintal

 

Creio que todo mundo já teve um quintal em sua vida. Pelo menos aqueles que tiveram a felicidade de passar a infância em uma casa. Mais que um simples espaço, o quintal era um santuário, um refúgio. Um lugar onde se passava a maior parte do dia. Ali a gente se escondia, brincava, e se sentia seguro.

O quintal tinha forma, cheiros peculiares, cores variadas, tinha vida. Era com um mundo à parte do mundo, com suas árvores, seus bichos, sua terra rica em minhocas, caracóis e insetos. Um escola/laboratório onde se aprendia os segredos da natureza.

Cada canto do quintal era especial. Havia o galinheiro com uma palhocinha no meio onde a gente catava os ovos. A horta, encostada ao muro, tinha quatro ou cinco leiras, de onde a cozinheira tirava os temperos e legumes que iam para a panela. A casinha do cachorro, de madeira tosca, ficava encostada à pequena escada que subia para a cozinha. O grande quaradouro de madeira e zinco se espichava ao sol, junto ao tanque de lavar.

O resto do quintal era ocupado pela mangueira, pelo araçazeiro, a jaqueira, a árvore da fruta-pão e o cajueiro, que arriava seus galhos para a gente subir.

O chão era de terra batida, mas havia umas manchas de capim onde viviam os grilos que a gente pegava com caixa de fósforo vazia e os percevejos que a gente botava no bolso das empregadas. Mas havia as lagartixas, os calangos e as formigas, que saíam do chão e subiam em fila pelos troncos das árvores e arbustos.

Lá no alto, nos últimos galhos, os passarinhos faziam os ninhos e acordavam a gente a cada amanhecer, com seus gorjeios harmoniosos. Na mangueira morava um sabiá-coleira, cujo canto até hoje está presente em minha memória, e um casal de bem-te-vi, que se deliciava com as mangas-rosas.

E o sarigüê, que de vez em quando passava em desabalada carreira na beirada do muro, carregando o filhote na bolsa e se esquivando das pedradas? Nunca consegui acertá-los, graças a Deus!

As coloridas borboletas, sazonais, se misturavam com as flores no canteiro que minha mãe cultivava para enfeitar a mesa da sala de visitas. Dividiam o alimento, o néctar das rosas, dos cravos e das margaridas com os beija-flores, que paravam no ar de puro êxtase.

O quintal tinha duas portas, como todo quintal que se preza. A permitida, dando acesso à casa através da cozinha, de onde vinha a conversa da cozinheira com a lavadeira, geralmente falando da vida dos outros. Mas que para a gente eram apenas sons confusos, que se ouvia mas não se prestava atenção. Era também da porta da cozinha que vinha o grito de minha mãe me chamando para almoçar, tomar banho, estudar, cumprimentar as visitas etc. Geralmente, esses chamados eram recebidos com má vontade, sinais de chateação, às vezes gestos raivosos. Quebravam o encanto, tiravam a gente das viagens, das caçadas, das explorações, das pesquisas.

A outra porta, lá no muro do fundo, sempre estava trancada e um cadeado prendia a pesada corrente. Essa era a porta proibida, nunca aberta. Dava para o mistério, para o desconhecido, para o mundo assustador atrás do quintal. Um mundo de mato fechado, habitado por feras, lobisomens e mendigos que roubavam criancinhas para comer. Era onde viviam as cobras que engoliam boi e gostavam de levar menino desobediente.

Mas aquela porta lá no fundo do quintal também escondia um mundo de curiosidades e aventuras. Feita de madeira maciça, virava e mexia ela estava sendo sacudida nos gonzos, testada para ver se abria e deixava espreitar o que havia por detrás. A gente se transformava em Super-Homem, em Capitão Marvel, em Tarzã, mas a porta permanecia firme e não se dobrava à força dos super-heróis. Desafiava o poder dos raios e a vontade dos deuses.

Um dia, aquele santuário foi maculado. De uma hora para outra acabou, perdeu o encanto, o sentido, virou um local assustador onde nunca mais eu quis pisar.

A porta do fundo amanheceu aberta, forçada com pé-de-cabra, e o rapaz que trabalhava em uma casa da vizinhança pendia enforcado na minha mangueira. Quem descobriu fui eu. Quisera não ter sido. A imagem nunca mais me saiu da cabeça.

Os olhos esbugalhados, a língua para fora, a calça cagada e mijada, o pescoço torto pendurado na corda, justo no galho que eu mais gostava. Logo me levaram para dentro de casa, em estado de choque.

Nunca mais voltei ao quintal, que era o meu mundo inocente, de sonhos e felicidade. A partir daí deixei de gostar de quintais. Eles perderam o sentido para mim. O encanto acabou.

Mudei os hábitos, passei a viver no porão. Era onde meu pai guardava seus livros e revistas. Aprendi a ler, e um outro mundo se abriu para mim. O quintal se alargou, ficou sem limites, sem portas fechadas. Hoje, o meu quintal tem muitas portas, que posso abrir a qualquer momento estendendo a mão à estante e pegando um livro.

 



Escrito por Junqueira Ayres às 19h02
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Miniconto

 

O esportista

 

Até há pouco, Antenor era um homem bem disposto. Aposentado, acordava bem cedo, fazia suas caminhadas matinais em marcha forçada pelo bairro. Ia ao banco fazer pagamentos, não entrava na fila de idosos. Pela tarde, visitava o shopping para um papo com os amigos. Ao anoitecer, voltava a pé e passava na padaria para levar pão para casa. Jantava com a mulher, e então os dois sentavam para assistir televisão. Cedo, ele ia dormir, o corpo cansado.

Desde jovem, Antenor foi um esportista. Exímio remador, jogava futebol com os amigos, disputava torneios de basquete, praticava natação em piscina e no mar. Orgulhava-se de se manter sempre jovem e saudável, e gostava de dizer que o segredo de domar a idade estava na cabeça.

Mas, de uns tempos para cá, começou a assumir certas atitudes de velho, para desgosto da mulher. Ficou mole, preguiçoso, não mais saía de casa. Até o pão vinham entregar na porta. Criou barriga, perdeu a vaidade. A mulher o incentivava a desenvolver certas atividades na rua, mas ele se recusava. Os amigos lhe telefonavam, cobravam sua presença nas rodas vespertinas, e ele sempre dava uma desculpa ou outra. Até que pararam de lhe procurar.

A saúde declinou. Bastava o tempo mudar, pegava resfriados, vivia de nariz entupido. Nessas ocasiões, vestia o roupão de banho, enrolava o cachecol no pescoço e assistia televisão com os pés imersos em uma bacia com água quente, saboreando um chá de limão com alho. A mulher via aquilo tudo com tristeza.

― É... meu velho está ficando velho ― dizia-lhe ela, mais como reprimenda.

Um dia ― tem pouco tempo ―, Antenor caiu em si. Achou-se ridículo no papel de ancião. Lembrou-se do seu glorioso passado de esportista, forte e sadio. E bonito. Vaidoso, sempre se achara uma figura de fina estampa. Resolveu mudar, sacudir a inércia. Despiu o roupão, tirou os pés da bacia, fez algumas flexões com os braços e pernas e meteu-se sob uma chuveirada fria.

Pegou uma pneumonia e morreu dois dias depois.

 



Escrito por Junqueira Ayres às 13h15

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Miniconto

A consulta

Na ante-sala da clínica do hospital, Adalberto aguardava a sua filha que havia entrado para realizar um exame especializado. Um pequeno caroço aparecera na mama da moça, e em casa estavam todos preocupados com o que poderia ser aquele corpo estranho. Em vista do estado psicológico da filha, Adalberto resolveu acompanhá-la. E lá estava ele pacientemente sentado na ampla sala, observando o movimento ao redor. De repente, ele ouviu seu nome ser chamado. Assustou-se, estava com o pensamento longe, imaginando como estaria indo o exame da filha. Chamaram-lhe de novo.

Adalberto se dirigiu ao balcão. Provavelmente, sua filha precisava dele lá dentro e havia pedido que o chamassem. Com o coração apertado, identificou-se e então lhe deram uns papéis, onde constavam dados pessoais seus. A moça do balcão disse para ele entrar e se dirigir à sala número sete. Lá, o médico, um senhor de cabelos brancos, o recebeu sorrindo e o mandou sentar na cadeira em frente. Fez-lhe algumas perguntas sobre a sua saúde, tomou sua pressão, auscultou-lhe o peito e as costas, apalpou-lhe cuidadosamente a garganta com os dedos, pediu para que abrisse a boca a fim de observar os interiores. Foi um exame quase completo. O médico perguntou o que queria saber e escreveu na ficha médica o que deveria escrever. Por fim, o encaminhou para um exame de raio-x, no fim do corredor. Depois, mandaram-lhe aguardar o resultado lá fora, na sala de espera.

Durante todo esse tempo, Adalberto fizera tudo o que lhe pediram, porém sem entender o que se passava. Afinal, só fora ali para acompanhar a filha. De novo sentado, ele encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, tentando coordenar os pensamentos. De repente, tocaram-lhe no ombro. Era sua filha, que já havia feito seu exame e o chamava para irem embora. Ele olhou para ela.

― Me aconteceu uma coisa estranhíssima ― e contou à filha o que tinha se passado.

Ela disse que não teria dado tempo para acontecer o que o pai falou. Ele insistiu. Então, se dirigiram ao balcão, e o pai pediu à atendente que confirmasse à filha a sua história. A moça negou, não o havia encaminhado a qualquer médico nem o seu nome constava da relação de pacientes inscritos para exames. Adalberto insistiu, disse até o nome do médico que o atendera na sala sete.

― Não há médico com esse nome, senhor, nem há sala sete aqui.

Então, a filha pegou carinhosamente o pai pelo braço e foram os dois pelo corredor, em direção à saída do hospital.



Escrito por Junqueira Ayres às 11h16
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